
Neste regresso a casa sentia-se material de escrita, confuso e por organizar.
A iluminação oblíqua que reflectia no rio dava as horas e o rubor que cobria o céu confirmava-as.
Sentia o fim daquele dia cair sobre a avenida, e muito mais se derrubava contra o corpo cansado.
Presa. Alcatroada em caminhos que conhece mal e que a confundem. A cabeça moída, a pingar culpa.
Uma narrativa acesa de momentos de que se recordava e que mastigava agora, inibida pelo peso da contradição do que era a sua rotina branda, leve, e do que tinha feito.
E aquela imagem, bocadinhos de céu daquela presença que colava na dela.
O olhar a desviar-se através dele, como quem não suporta o peso do medo, tão humano e que atraiçoa tanto.
O parar de mundo de que só dois corpos nus e entregues são capazes resvalava agora para uma quase perseguição. Tudo naquele "pós", os cheiros entranhados nas roupas, na pele, os olhos ainda brilhantes daquela febre que é amar com dias contados.
Deixou passar aquelas horas num ameno distante, na frieza de quem quis agarrar aquelas mãos tantas vezes e não pôde. E agora que pode, não quer. E agora que se atravessa nele só lhe resta um sopro de qualquer coisa gelada, abstracta, ingrata como vontade vazia.
E escreve-se assim, egoísta, neste impasse insensato e dificil de entender que é o esbater de um sonho.
Nisto, relegada para um qualquer plano secundário que não sabe qual é, abraçou casa vazia de espírito, como quando se olha aos olhos daquelas pessoas que nos despem com a verdade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário